Discernimento. Pra quê serve?

Discernimento Confinado, Consequências Sombrias.

por Stupa Lima  

O ego é o motorista que conduz a vida e usa do aparato sensorial como estrada. Por isso mesmo, o ego é o representante oficial da consciência, o que, pelo estado em que se encontra o mundo, anda desgovernado. Feito zumbis, agimos caóticos: os estímulos que nos guiem, ora pois!. E eles assim o fazem. Num efeito cascata, os estímulos ofertados servem à alegria e à positividade, como também aos perigos e à alta competitividade durante a jornada. Para ambas situações, as ofertas não naturais, mandam-nos comprar se quisermos obter prazer e segurança, questões que são básicas para bicho-homem e que acabam por inflar o ego já labiríntico. Mas quando estamos com nós mesmos, naquele momento solitário antes de dormir, a cabeça não para, sendo isso o tipo de dor que um ego inflado sente. Pensamentos mil não cessam, alavancados por medos, baixa autoestima ou sentimento de enorme insegurança. Porém, a cada dia, continuamos a seguir determinados em obter prazer, sem perceber que há uma espécie de feitiço provocado pelo alto nível de estresse que tal busca, desenfreada, gera. Esse efeito negativo e avassalador é causado pela lubridiada realidade que construímos a nossa volta por meio, tão somente, dos estímulos sensoriais ofertados. O ego adoentado, caminhando por aí, os recebeu, processou, guardou na memória emocional e raramente pensa a respeito sobre o que de fato é fonte de segurança e prazer para si mesmo. Valores éticos, se existem, estão misturados com valores morais, culturais e midiáticos, que torna o potencial de discernimento sobre vida e morte, confinado. Nesse contexto, a vida humana recebe consequências sombrias.   

Para obter o melhor da vida, precisamos encarar o primeiro dos males: o mundo está perigoso, porque nós humanos permanecemos no nível do medo e da insegurança, exorcizando-o às escuras; em tempos modernos, expurgamos a raiva pelas redes sociais, adornamos virtualmente a autoestima e maltratamos nossos pais, porque não temos coragem de falar em pé de igualdade humana com o patrão. Essa sanfona emocional torna a vida deprimente, qualidade contrário ao que de fato deveria nos causar que é a inspiração. Onde obter paz com esse ambiente interior insano? Confrontos e traumas sucedem-se; o mundo fica compartimentado; Ouroboros perpetua.

Abraçar os próprios males ao invés de apenas ver o lado lindo da vida, retira o comum e nos torna extraordinários, pois o discurso pessoal influi em coragem, e isso desbrava a nós mesmos. A vida é um somatório de acontecimentos, bons e ruins, mas nunca desnecessários ao nosso pleno desenvolvimento em algum plano que pode estar bem escondido. Quando a olhamos de frente, vemos o tempo, ali, nos devorando. Então, deixamos de perde-lo com supérfluos para discernir melhor entre o que nos faz bem e o que nos faz mal. O ego, assim, pode agir pela reflexão ao retirar seu estado puramente reativo, zumbi. Refletir é pensar sobre os próprios pensamentos, exercício que exige atenção, disciplina e técnica. A meditação é uma prática, por exemplo, que afina o ego a agir no momento presente e não no âmbito da memória reativa; cria um oásis dentro de nós, uma lacuna entre o estímulo e nossa resposta a ele. Ao observar os próprios pensamentos, deflagramos suas demandas emocionais e podemos conectá-las aos estímulos que as nutrem. A meditação, que tão somente é sentar e fechar os olhos, é um exercício que ensina o “estado presente”, modo esse que, quando se torna um hábito, a meditação acontece por todo tempo de vigília que dispomos; o tempo deixa de nos devorar e a vida passa do status de puro gozo, para o estado da mais plena felicidade.

O rio que segue seu fluxo, cai por ribanceiras, quedas gigantescas, recebe lixo, ao mesmo tempo que sente as vidas que nutre. Por fim, chega ao oceano e toda aquela jornada se consagra: valeu a pena.

(Aforismo Grego: “conheça-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o Universo”)       

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